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Nuvens de Barro: uma “pequena” montagem, de grandeza sem par

“Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado. Sou fraco para elogios”.

(Manoel de Barros – “Tratado geral das grandezas do ínfimo”)


(Por Ney Mourão)

“Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando”. O trecho do poema do poeta cuiabano Manoel de Barros é um dos muitos que traduzem com grande singeleza a obra deste escritor. Alguns adjetivos vêm à mente, quando se lembra de seus versos: leveza, a atenção às “miudezas”, o amor às coisas desprezadas pelo olhar dos comuns, a humanização das coisas, lugares e seres. Uma primeira e rasteira análise disso, no entanto, pode deixar passar algumas outras características, de imensa importância: a angústia pela incompletude da realidade, um senso de crítica e ironia impressionantes, a defesa incansável do que é original e único em si mesmo e nas pessoas.

nuvens de barroO espetáculo de dança “Nuvens de Barro”, da Cia. de Dança do Palácio das Artes, que teve única apresentação no Grande Teatro, no final de junho é um hino de amor ao poeta. Captar a essência da poesia nem sempre é tarefa fácil – corre-se o risco de uma impregnação exagerada com valores próprios que matem a essência do que se interpreta. A direção geral de Cristiano Reis, a direção cênica de Joaquim Elias, a direção coreográfica de Fernando Martins, a iluminação precisa e sem excessos de Leonardo Pavanello, ao lado da criação coletiva e interpretação de atores bailarinos sintonizados com a emoção que transcende a técnica, fazem deste espetáculo algo emocionante.

Lá está o universo ribeirinho e sua melancolia (como não encher os olhos de ciscos em pas de deux arrebatadores ou em cenas viscerais, utilizando uma simples (simples?) maçã ou um barquinho de papel – aquele que navega em um “fim de mar que colore os horizontes”? Lá está a ansiedade da impermanência, o desejo de arrancar do peito o desconhecimento e a incompletude.

Nesta montagem, um diferencial cênico. O espetáculo foi concebido para pequenos espaços, teatros de arena, locais onde a cultura necessita de ocupação e expressão. Para isso, há dois elencos, que se revezam, nas apresentações. Na prática, quem assistir aos dois elencos terá uma mesma inspiração, mas espetáculos diversos, em vibração e detalhes. No Grande Teatro, pela primeira vez, os dois elencos apresentaram-se ao mesmo tempo. O resultado é a tradução mais literal da incompletude que busca a sua inteireza, tão presente em Manoel de Barros.  O olhar perdido de alguns atores para a cena vizinha é de uma força que faz o espectador mergulhar em seus sentimentos mais bondosos. Arrisco avaliar que, por ser a primeira experiência do grupo, é um olhar não da mera encenação, mas de transbordamento verdadeiro das almas que ali estão, imersas, abertas inteiras (inteiras?!) para o espanto e surpresa que vem de fora (de fora?!).

Não sei o que dirão os “especialistas” em arte. Mas prefiro me lembrar, mais uma vez do poeta: “a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”. Além de toda técnica, Nuvens de Barro é encantamento puro. Para ver com os olhos da alma, em um mundo onde a cegueira desmedida tanto tem feito lugar e morada onde deveria haver a poesia.

(O espetáculo retornará, brevemente, em temporada na sala Ceschiatii. Fiquem ligados no blog, para saber. Selinho “Imperdível”, por antecipação).

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Publicado às 19 19America/Sao_Paulo fevereiro 19America/Sao_Paulo 2018 por em Opinião, Teatro e marcado , , , .
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