DE TUDO VAI ROLAR

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“Aqueles Dois”, da Cia Teatral Luna Lunera… E as voltas que o meu mundo deu, dá, dará…

Aqueles Dois

Foto: Site oficial Luna Lunera – Guto Muniz

O espetáculo “Aqueles Dois“, montagem da Cia Teatral Luna Lunera, baseada no belíssimo conto homônimo de Caio Fernando Abreu, está fazendo, em 2017, dez anos de apresentações, retornando aos palcos de Belo Horizonte (veja matéria no blog). No palco, os quatro atores (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Guilherme Théo), com a codireção  e  e codramaturgiao de Zé Walter Albinati. Perdoem-me, os leitores, pelo raro momento de escrita, aqui, em primeira pessoa. Sensação mágica, perceber que a cada nova reestreia, cá estou eu, de alguma forma envolvido. Escrevi o texto em destaque abaixo há mais de três anos. Na época, ter um blog assinado imerso em cultura e arte nem me passava pela cabeça. Meu envolvimento era o de um ser inquietado, que encontra na arte uma espécie de sintonia nas angústias, buscas, perguntas e “maravilhamentos”. Isso não mudou, mas hoje também compartilho em maior escala com outros aquilo que gostaria de ver, de aplaudir, de estar junto. Este blog não é nada mais que isto: um jeito organizado (será?) de compartilhar.

No texto abaixo, eu digo que já havia escrito, há sete anos, uma mensagem para a produção do espetáculo e que gostaria de resgatá-la, para tentar perceber em que eu havia mudado. Ironia, coincidência, mágica, acaso… Hoje, com o auxílio dos membros da Luna Lunera, resgato esse texto, que caminha para os quatro anos. Encontrar a frase fez-me parar para refletir sobre minhas mudanças pessoais, profissionais, existenciais. Quase terapêutico. Arrebatamento. Emoção e ciscos nos olhos, ao lembrar que chegar aqui e estar lendo este texto envolveu diversos momentos de desafios até mesmo sobrevivência. Os vários em mim que se foram… Aqueles todos, mais que dois, que me empurraram de dentro pra fora e me trazem aqui, leem esse texto com uma mistura de perplexidade e um auto-afeto deliciosos. Recomendo  a leitura desse meu texto. E, pela extensão dele, caso não lhe provoque disposição, recomendo como imprescindível assistir à peça. Registre e registre-se perante ela. E, por favor, tente guardar as impressões, para quando um dia “aqueles dois” voltarem a fazer um novo estardalhaço em sua alma e você desejar um reencontro com o seu par que habita em você.

Sobre “Aqueles Dois”, da Companhia Teatral Luna Lunera
(Por Ney Mourão, em 13/09/2014)

Uma boa safra de vinho, quando os anos passam, fica ainda melhor. Há que se impregnar, nas entranhas do líquido, algo que vai além do sabor e do aroma. O deixar-se ficar, quieto e acariciado pela melhor temperatura, luz e, acima de tudo, expectativas, faz com que a bebida se torne o melhor de si, para quem tem em si o melhor cuidado em apreciar.

Uma relação de qualidade, de almas que se encontram, quando os anos passam, tende a deixar de ser mais que apenas um mero e descuidado encontro, mas uma construção. Dessas, que envolvem detalhes pequenos, nadas infinitos mas que fazem a diferença, como o reconhecimento de olhares, a ternura aquecida das falas, o silêncio necessário quando os corações precisam ser ouvidos. O deixar-se penetrar, cuidadoso e sereno; o saber fazer-se próximo, de um jeito renovado a cada dia, faz com que o néctar suave do encontro vá se tornando diferente e bom – menos cálido e vigoroso, mas impregnado de uma verdade que nada dissolve.

Assisti ao espetáculo “Aqueles Dois”, hoje, pela quarta vez. E senti-me como se apreciasse uma safra de vinho que, há sete anos, repousa sob a sombra tênue e cálida de uma adega úmida e aconchegante, para ser apreciado. Não que a melhor imagem para traduzir a peça seja serenidade, apenas. Não é. Ela traz em si tudo o que o texto de Caio Fernando Abreu consegue impregnar em nossa alma: serenidade, ternura, intensidade, vigor, ímpeto, acalanto, vontade de vivenciar uma relação tão suaveforteloucaamorosa. Tudo misturado, revirado. Mas, sete anos após a primeira vez a que assisti, “Aqueles Dois” traz ainda mais que o texto de Caio. Traz visceralidade multiplicada. Ali, no palco, aqueles dois, aqueles quatro, aqueles todos, aquela multidão de aqueles, que se confundem, nos confundem, conseguem nos fazer mergulhar de cabeça.

A marca de Luna Lunera é inconfundível: se você não se entregar, meu caro, é porque não merece estar ali. Sete anos depois, aqueles quatro estão mais saborosos – como a boa safra do vinho. Suas almas se encontraram e, neste encontro bom, tornaram-se ainda mais ardilosos nesta mágica deliciosa que é penetrar em nossas almas. Dilacerantes. Retrato em quatro por quatro, mas que não cabe entre quatro paredes. É um espetáculo que dá vontade de ver por todos os lados. Por cima… DENTRO!

O que se mistura não são as falas e as trilhas, mas os nossos sentimentos – inveja boa, cumplicidade, desejo, ansiedade, saudades… Tudo tão humano, que a gente esquece que é teatro. E, quando isso acontece, é porque o vinho bom da arte transbordou, inundou, nos invadiu. Lembro-me de que escrevi, há sete anos, quando assisti pela primeira vez ao espetáculo, algum texto, que enviei para a produção. Não me lembro mais do seu conteúdo. Uma pena. Gostaria de comparar e ver em quê mudei. Como está dito em seu folder de apresentação, muita coisa mudou, neste tempo. Sei que também eu mudei bastante, não apenas na imagem que me espreita do fundo do espelho, desconfiada como aqueles dois, no primeiro encontro. Mas sei de algumas outras coisas. Que não mudou em mim a emoção que este espetáculo provoca. Talvez mais intensa, como o naipe do vinho envelhecido , pois tive a sensação de que hoje, na quarta vez em que assisti, chorei mais. Sei, também, que o espetáculo está, sim, melhor. O timbre está mais afinado, os instrumentos mais bem dispostos. Aqueles quatro são almas abençoadas pela lua. É o brilho dela que os ilumina em cena.

É bom de ver. Hoje, o Caio, lá, vendo esta lua de aura encantadora, que hoje brilhava no céu, deve estar feliz, sorvendo uma taça de vinho. Está aquecido e com a alma feliz, com o belo presente que ganhou. Que sejam longos os dias. Altivos, em branco e azul, azul e branco. Felizes, para sempre. E serão. E serão!

 

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Publicado às 23 23America/Sao_Paulo novembro 23America/Sao_Paulo 2017 por em Opinião, Teatro e marcado , .
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