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Às Margens, do Grupo Teatral In-Cena: celebrando dez anos com uma montagem impactante e reveladora

(Por Ney Mourão)

Guimarães Rosa definiu, em seu conto “A Terceira Margem do Rio”, este lugar terceiro, indefinido, porém latente, cruel. A margem não-direita, não-esquerda, aquela que nos contorna, oprime, impede que fluamos, no natural do escorrer, rios humanos em busca de nós mesmos. A margem terceira, de Guimarães, é a margem da despedida, da incerteza, do não-vir, do não mais, do que parte sem explicação.

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O espetáculo Às Margens, do Grupo Teatral In-Cena, de Teófilo Otoni, traz à cena esse incômodo roseano do que não está inserido em nosso conforto de navegar. Atores seguem trôpegos, narrando uma história que fala daqueles que trafegam cotidianamente na incerteza, no abandono, na resistência ao que é dominante. Essa “margem” dos excluídos, ao mesmo tempo que revela feridas, mostra uma beleza indescritível. O que dizer das imagens no telão, daqueles semblantes de nossos sertões tão conhecidos e propositalmente ignorados, vencidos pela estética do urbano, dos shoppings, das esquinas iluminadas do concreto pseudo-esteticamente perfeito? O que dizer das indagações da criança excluída, a voz de tantos negros, pobres, favelados desse nosso imenso território dominado pela falsidade? O que dizer das canções religiosas, resgatadas das comunidades, heranças de antepassados? O que dizer da sensação de quase poder sentir o cheiro daquele café fumegando, depositado sob a brasa crepitando do fogão a lenha, na reunião familiar – tempos que, hoje ficaram também à margem de nossas lembranças e dias?

Em Às Margens, o corpo também pulsa resistência. Os atores expõem-se, porque não é possível ir além da margem se a nossa própria geografia interna, mental e psicológica nos prende. O corpo, exposto, traduz vulnerabilidade, mas também representa força, presença. Mergulho no rio, mergulho na história, contada de forma plural e multifacetada, como é a história esquecida, a história que não vai para os livros oficiais, a história – como o texto da peça diz, em certo momento – da negra febril atirada ao mar.

Celebrando dez anos de estrada, o Grupo In-Cena revela um talento amplo, explorando a linguagem multimídia. O documentário de Florisvaldo Júnior é desses primores que consegue abraçar com larga delicadeza o palco, compondo com a dramaturgia sem brigar com ela, acrescentando-lhe encanto e lirismo. A música do espetáculo é quase uma presença física. Atabaques, tambores, cordas – até mesmo a guitarra acústica, que pode ser perigosa, quando há tanta poesia, soa como uma lamúria, um gemido de expressão dos excluídos.

Não há conforto em “Às Margens”. Desde a iluminação – meticulosamente arranjada para não revelar amplamente, para ofuscar, mais do que expor –, passando pela cenografia crua, por figurinos que dialogam com a estética da opressão (a fábrica, a lona, a bota, a linha de montagem…), até o contato quase direto dos atores com a plateia. Olho no olho, penetrando a alma. Em tempos em que a arte tem sido tão questionada – e até mesmo atacada. Em tempos em que a sociedade anda de forma tão afrontosa querendo recriar margens que imaginávamos já transpostas, a peça quer mais instabilidade do que equilíbrio. É navio negreiro, é tortura, é soco na boca do estômago, é despacho na encruzilhada. Porque é Brasil, e é assim que somos, mesmo que alguns não queiram ver, mesmo que alguns não queiram desvelar. O grupo conseguiu construir, em pouco mais de uma hora, não uma tela rebuscada de um museu, mas um muro rabiscado por grafites. Em tempos de confrontos, é bom perceber quem revela a força da arte como melhor argumento.

Guimarães Rosa, que um dia expandiu os limites dos vales, dos sertões, de tantas margens reais e subjetivas, ficaria feliz de assistir. “Às Margens”, atravessando as linhas divisórias de um Vale do Mucuri isolado pela geografia e pela exclusão, é como um rio que, transbordado, inunda e revela outras margens escondidas. Incômodo bom. Bom de ver, bom de sentir. Margens questionadas. Terceiras margens em nós.

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Publicado às 7 07America/Sao_Paulo outubro 07America/Sao_Paulo 2017 por em Opinião, Teatro e marcado , .
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