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“Certos Rapazes”: uma montagem para almas que não têm medo de inundar-se de amor e poesia

Por: Ney Mourão

O tema, quando se trata de teatro em Belo Horizonte, teria tudo para beirar o caricato, o exagero. Os atores poderiam carregar nas tintas, exacerbando caretas e executando gestos ampliados de mãos. A luz poderia concentrar-se nos tons quentes, transformando os ambientes cênicos em um cabaré irreal. O erótico poderia extrapolar as barreiras do bom senso e ser quase pornográfico, incômodo.

certos rapazes

Foto: Matheus Soriedem

Nada disso! “Certos Rapazes – O Nosso Amor a Gente Inventa” é um espetáculo para se ver com o coração e a alma relaxados. Chega a ser uma pena não haver uma sessão no Dia dos Namorados, pois é desses momentos em que a arte pode ser degustada a dois, e por aqueles que estão em comunhão de corpos, pensamentos e esperanças.

Com um texto doce, bem-humorado e inteligente, Júnior de Sousa e Luís Villefort apresentam o casal Pedro Henrique “PH” e Guilherme, interpretados por Gérson Marques e Gulherme Neves, desde o conhecimento em um flerte por um aplicativo até… Nada de spoiler! O que acontece, a partir do momento em que os dois se conhecem é que somos arrebatados para o convívio deles. O escritor francês Theophile Gautier disse, certa vez, que amar é admirar com o coração e admirar é amar com o cérebro. Esta mistura de cérebro e coração fica explícita no encontro de PH e Guilherme. E a admiração pelos dois é algo que envolve quem está no recolhimento do escuro cênico espectador. Em muitos momentos, os personagens dialogam com a plateia, numa intimidade boa, provocante, que causa inveja por um romance que flui, forte como os romances deveriam ser, independente de gênero ou identidade.

O cenário é quase nu. Uma armação camaleônica transforma-se na cama do casal, no sofá, na sacada do terraço. Ou no “armário” – metáfora, quem sabe, dos tantos em que a comunidade gay precisa explodir bombas de resistência e afirmação, para conseguirem uma vida mais real. Um ambiente desnudo como os sentimentos expostos que se revelam, a cada minuto. Não é necessário mais nada, além da história, que os dois atores seguram muito bem e com uma naturalidade deliciosa de se ver. A direção de Maurício Canguçu, este fera do teatro mineiro que não se cansa de fazer bem feito, é precisa, pincelar! Tudo mais seria excesso. A luz construída de uma forma tão cuidadosa que, em algumas cenas, soa como uma tela – como no momento em que os dois apreciam a lua na sacada. Diálogos engraçados, sem a caricatura da “cena gay” travestida de um certo preconceito implícito que muitos textos mineiros têm proposto. A trilha sonora é poesia pura. O que dizer da canção de Maria Bethânia, nas cenas finais? É quase bullying, de tão lindo! E tão próprio, no contexto! É de tornar em estado líquido qualquer coração endurecido e gelado, seja feminino, macho – ou nem tanto.

A nuance dramática aparece como é, de fato, nas relações: vai-se construindo aos poucos, corroendo, insinuando-se, imperceptível, pavio pra explodir O espectador percebe primeiro – e a competência dos autores se expressa mais uma vez aí. Vamos nos corroendo por eles, e torcendo para que “isso não pode estar acontecendo”. E não é assim, na vida real?

Belo, poético. Uma relação homoafetiva? Sim! Sem estereótipos, afetivamente abordada. Mas não só isso! É uma RELAÇÃO, com maiúsculas e com as dores e delícias de ser o que é. Escancarada. Inundada de suavidade. Plausível. Faz rir. Faz chorar. Incomoda, mas sem ferir. Uma história, basicamente, de opostos. Como os tantos que encontramos pela caminhada. Recomendado para quem anda precisando despir-se e encantar-se. Para levar o namorado, a namorada, e assistir de mãos dadas e cabeça no ombro. Ou para ir sozinho, e sonhar com um amor assim: desnudado, que vence os desafios com coragem e que constrói junto, à revelia das barreiras. Certas pessoas, certos rapazes que andam por aí precisam assistir a este espetáculo.

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Informação

Publicado em 7 07America/Sao_Paulo setembro 07America/Sao_Paulo 2017 por em Opinião, Teatro.
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