DE TUDO VAI ROLAR

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PRIMEIRAPESSOADOPLURAL, mais um espetáculo visceral da Cia. de Dança do Palácio das Artes

Cia de Danca.jpg

Foto: Netun Lima

A Cia. de Dança do Palácio das Artes, em suas últimas montagens, tem demonstrado um especial empenho em tocar a alma de quem a vê em cena. Sobre “Nuvens de Barro”, inspirado nos versos do poeta cuiabano Manoel de Barros, já escrevi aqui, no blog (leia aqui). Neste final de semana, sábado (05/08), às 20h30, e domingo (06/08), às 19hno Grande Teatro do Palácio das Artes, é a vez de mais uma destas sessões de deslumbramento e poesia, com o espetáculo PRIMEIRAPESSOADOPLURAL. Ingressos a 20 Reais (inteira) e 10 Reais (meia-entrada).

Um pouco mais sobre o espetáculo:
(Ney Mourão)

Não por acaso, já no título desta obra, quebram-se as barreiras dos espaços, foge-se à regra, procura-se provocar o incômodo. E, sim, este não é um espetáculo “fácil”, no sentido de uma mera fruição estética. É um soco bom, no estômago da sensibilidade e da emoção. PRIMEIRAPESSOADOPLURAL é fruto da criação coletiva dos atores da Cia., soma das vivências, pesquisas e sensações de cada bailarino, em parceria com os diretores do espetáculo, o mineiro Tuca Pinheiro e o pernambucano Jorge Garcia. O resultado é uma visível ânsia por aquela completude que todos buscamos, já sabedores de sua impossibilidade tão angustiante, mas que nos move, em gestos, ações e crenças.

Em cena, os corpos se misturam. Há momentos em que, de forma tão intensa, que nos parece um único organismo que pulsa, vivo, organicidade intensificada por um competente jogo de iluminação: interior, cavidade, corpo; ao mesmo tempo, a luz (impecável, de André Boll), da catedral que se abre majestosa, para receber aquele culto todo, de uma religião (ou negação dela!) plural, miscigenada, quase caótica. É pluralidade singular, com toques de barroco, de negro, de índio.

Como em seus últimos espetáculos, a Cia. marca posição face à nossa brasilidade. Além dos figurinos e adereços criados por Ananda Sette, que mesclam referência indígenas, africanas e europeias,  a trilha sonora traz o batuque, o terreiro, a ciranda, que penetra, sem medo de pecar, a música clássica europeia. As inquietações e dores, porém, são universais, no palco de PRIMEIRAPESSOADOPLURAL. Quem for assistir, repare na magnífica cena (a que sempre provoca cisco nos olhos deste blogueiro…) em que dois bailarinos são coreograficamente manipulados por outros, em movimentos de angústia, tentativa de libertação. Há uma dor barroca ali, uma memória atávica de capelas, de crucificações, de sofrimento. Talvez não seja por acaso uma lembrança imagética do quadro da Criação de Adão, em que Deus e homem quase se tocam, em uma infinitude milimétrica. Ao mesmo tempo, é aquela sofreguidão da busca do encontro e , meu Deus! A ruptura, retratada de uma forma que só a arte concebida com total entrega é capaz de proporcionar.

O que dizer, também, da contundente cena dos corpos que se amontoam, num aglomerado menos físico do que de carícias, simbolismo visceral desta vontade nossa cotidiana e transcendente de entregar-se? Entrega, talvez seja o eixo definidor da atual fase desta Cia., tão importante para o panorama cultural de Minas Gerais. Isso está latente na expressão corporal e facial dos bailarinos, na dedicação, por exemplo, em oferecer espetáculos em horários, locais e preços acessíveis. Em PRIMEIRAPESSOADOPLURAL, as “pessoas” são visíveis. A angústia não é artefato cênico; ela está ali porque é incorporação pura (ou exorcismo, quem sabe!) do que os artistas querem transbordar. Em uma recente apresentação, o corpo de atores abriu-se para uma roda de conversa, logo após. E o que se viu foram indivíduos com um misto de esvaziamento e, ao mesmo tempo, de intensa plenitude, emoção incontida que fluiu, rio de entrega, sem margens a conter. Primeira pessoa, única, singular, em pluralidade.

Está virando rotina falar com emoção deste grupo, aqui no blog. Ah! E que bom que assim esteja sendo, em tempos onde a arte anda sob tanta suspeição e incômodos nem sempre ligados à catarse e à qualidade de sua expressão! Que bom, que estes moços estejam assim, não sabendo fazer de outra forma que não seja a entrega de corpo e alma! Bom pra nós, que os sugamos em sua imensa doação de bondade. Mais que dança, estão fazendo a coreografia da poesia, que muitos não acreditam ser possível!

 

 

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Publicado às 5 05America/Sao_Paulo agosto 05America/Sao_Paulo 2017 por em Dança, Opinião e marcado , .
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