DE TUDO VAI ROLAR

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A rua, essa casa de tantos corações – Uma visão sobre o trabalho com a população em situação de rua

Por Ney Mourão

“Eu não acredito em caridade, eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima pra baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas.” (Eduardo Galeano)

de ruaApós mais de um ano sem realizar o trabalho com a população em situação de rua, com o apoio de amigos que aderiram ao convite, estamos de volta. O chamado interno já vinha antes mesmo desse frio cortante que vem fazendo na cidade, aceso, inclusive, por sucessivos encontros “casuais” com amigos da rua, que expressaram sentimentos como saudade, carinho e cuidado – tudo aquilo que achamos que nós é quem estamos levando e eles sabem nos ofertar, com uma generosidade que sequer têm noção.

É um trabalho desvinculado de qualquer instituição, sem vínculos com preceitos religiosos ou viés ideológico. Proponho a amigos que façamos novos amigos que se encontram na rua. Há alguns anos, quando pensei em fazer este trabalho, passei um pouco mais de duas semanas na rua, para tentar vivenciar pelo menos uma parte da complexa situação dessas pessoas – inclusive poucas noites quase insuportáveis em um abrigo, algo que costuma ser ingrediente de críticas de muitos, que questionam o fato de moradores não quererem se abrigar, por desconhecem as condições dali.  E proponho alguns diferenciais na abordagem. Um trabalho menos focado no atacado, mas no “varejo”, no tempo sem pressa: toque, abraço apertado, olho no olho, valorizar a escuta mais que a doação material, desarmar resistências, inspirar confiança, entregar-se também, construir a efetiva “relação de ajuda” (termo da psicóloga Clara Feldman) sentando ao lado, preferencialmente no chão, junto com os seus pertencer, em sua “casa”. Proponho que lidemos não no modelo do dano, do problema, com coitadinhos ou pessoas com problemas, mas no modelo do desafio, com pessoas com potenciais, talentos, histórias de vida importantes.

E aí, caros amigos, é sempre um turbilhão de emoções a cada saída e não foi diferente, esta retomada. Encontramos gente armada pela desconfiança, inicialmente, e que se despediu com direito a abraço e a “vou dar um beijo no rosto nesse homem, aqui, mas é um beijo com a minha alma”. Encontramos gente que confessou já ter pensado em se suicidar, e que na despedida disse que “vou estar aqui, esperando você voltar”. Encontramos gente cadeirante, sem a cadeira de rodas, impedida de se movimentar, dependendo dos outros amigos de rua para tudo. Encontramos gente em processo de drogadição, implorando ajuda para se tratar. Encontramos poetas, encontramos muitos mas muitos e muitos leitores, ávidos de leitura, que nos solicitaram doações de livros – uma surpresa pra mim, mesmo depois de seis anos desse trabalho! Encontramos, inclusive, um que declamou um longo e arrepiantemente belo poema, que fala de esperança, e de um mundo em que “deixarei minha felicidade inundar”. Encontramos profissionais como pedreiros, mecânicos, auxiliares de enfermagem, pintores, escultores.  Encontramos gente que quis “cantar uma música pra vocês; já fui cantor”, e que soltou a voz com nossa acordeonista voluntária. Encontramos gente que recusou uma doação a mais porque “outros irmãos mais necessitados podem precisar”. Encontramos gente preocupada em nos “receber”, um pouco surpresos com a gente se esparramando no chão, arrumando um caixotinho pra gente ficar mais confortável. Imaginem!

Mas nosso maior encontro estava reservado para o final. O senhor José Roberto, provavelmente com mais de 70 anos, há  nove na rua, “nesse mesmo lugarzinho”, estava num vão de calçada, dormindo, sono pesado. Com muito cuidado, colocamos mais uma coberta sobre a manta fina sob a qual ele se encolhia, embalamos um sanduíche, deixamos uma água e um chocolate. Quando já íamos embora, ele acordou. Acordou e nos brindou com um sorriso desses de descongelar qualquer alma empedernida pelo cotidiano. Acordou e nos brindou com um bom humor e uma serenidade que todos nós há muito não víamos. Da conversa, cheia de brincadeiras, trazemos hoje em nossa lembrança, frases como: “Sou grato, por tudo aquilo que me falta”; “Acordo todos os dias e agradeço, por estar vivo”; “Às vezes, acordo de madrugada, com muito frio e até com alguma dor, mas agradeço, porque se acordei é porque tenho a vida de presente”; “Sou grato pelos sofrimentos, porque só eles é que me fazem pensar em Deus”; “Eu acredito que quando a gente dorme tem um monte de anjos, ao redor, cuidando da gente. E, agora, quando acordei, achei que eles eram de verdade”. “O sorriso dela é lindo; parece estrelas”.

Senhor José Roberto é um desses presentes. Dessas dádivas que a gente recebe, ajuda que nos vem, quando a gente acha que vai ajudar e somos obrigados a reconhecer como somos tão ingratos com o que temos, como não reconhecemos nossas riquezas, como não valorizamos nossa vida, esse maior presente que temos todos os dias. Todos os que encontrei nessa trajetória foram “presentes”, os amigos da rua e os amigos que me acompanham nesta insanidade boa de acreditar que é possível um mundo mais próximo do que a gente acredita como, se não justo, pelo menos mais humano.

Grato a todos! Espero ver outros de vocês, neste aprendizado. E, pra não perder o hábito de quem quer fazer muito, mas dispõe de quase nada… Toda ajuda é sempre bem-vinda!

Participe como voluntário(a) nas ações. Lembre-se: o frio vai embora, a desigualdade não. Mesmo quando a “onda” do frio passar, não se esqueça de colaborar.

Ações:
– Ouvir, conversar…
– Doar alguma forma de trabalho: corte de cabelo, por exemplo.
– Doar algum talento: cantar, tocar um instrumento, fazer uma pequena oficina.
– Ajudar na organização, anterior ao dia de saída.

(Do)ações:
– Água mineral
– Livros
– Roupas e agasalhos, principalmente masculinos. Calças, preferencialmente, que não sejam brancas ou em tons muito claros (eles têm dificuldade em lavar);
– Bonés (imprescindível, principalmente para os que trabalham na rua, durante o dia);
– Meias e roupas íntimas;
– Cobertores, lençóis, fronhas;
– Itens de higiene pessoal (sabonete, creme dental, escova, desodorante);
– Ingredientes para o lanche: café, achocolatado, suco, pão, recheio para sanduíche (mortadela, queijo).

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Informação

Publicado em 13 13America/Sao_Paulo julho 13America/Sao_Paulo 2017 por em Lugares, Opinião.
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