DE TUDO VAI ROLAR

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Sobre cordas, cordinhas e cordões ou mais valem meninos em festa que mil papeizinhos voando – Uma visão sobre o Carnaval de BH

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Foto: Pietro Tega

Texto: Luciana Cezário – Performer e educadora

(Pós-postagem: Logo abaixo do texto da Luciana Cezário, publicamos a resposta do Christiano di Souza, um dos idealizadores e organizadores do Então, Brilha, que foi postada na página oficial do bloco. Leitura necessária, por compartilharmos que a postura aqui criticada – e com razão – não é a tônica geral do Brilha. Pelo contrário. Mas discutir, expor, refletir, é o caminho para uma construção efetivamente COLETIVA em que este blog e seu blogueiro acreditam!)

 

Era uma vez uma cidade que – diziam – não tinha carnaval. Era uma vez um carnaval que – dizem – é de luta. Era uma vez meninos de rua quase todos pretos – “ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres” – expulsos da festa que canta que gente é pra brilhar. Era uma vez um carnaval. Era uma vez uma luta. Era.

Nos últimos anos em BH vivi coisas muito bonitas na comunhão da festa na rua. Mas nesse sábado de carnaval, “eu chorei, na avenida eu chorei”. O dia estava bonito. Céu azul, bombas de amor e de papel, balões coloridos e ato contra a LGBTfobia. A rua nos brindava com a possibilidade de viver as diferenças, aprender a convivialidade, tão difícil, em festa.

Mas ficou o desgosto… Meninos de rua que brincavam o carnaval foram segregados da festa. Entraram no meio do cordão e dançavam, se divertiam! Crianças pobres pretas que contrastavam com as crianças brancas que, protegidas por um cordão reservado a elas, brincavam o carnaval com suas mães. Crianças pobres pretas que “brilham mais do que milhões de sóis e que a escuridão conhecem também”. Traziam em seus corpos toda a carga da rua. Não tinham fantasia, tinham o olhar de quem já tinha vivido muitas coisas – coisas de adultos (mas não quaisquer adultos). Tinham a corporalidade de quem decide sobre si, sobrevive. Suas presenças eram dor e alegria ali, na vida da cidade. Agradeci, intimamente, àqueles meninos por me permitirem conviver com eles em festa. Mas então, tudo ficou opaco…

Um senhor branco que trabalhava na organização do bloco aproximou-se e expulsou – sim, ele EXPULSOU VIOLENTAMENTE – os meninos. Tentei reagir, junto com minha irmã. Foi pior. Sua cara era de desprezo – “pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”. Ele ficou com mais raiva: retirou os meninos à força de dentro do cordão, os empurrou, como quem dissesse: “sai cachorro!”. Um deles tropeçou, caiu. Os filhos de Gandhi foram excluídos do carnaval que canta o afoxé.

Não precisava de força. Os meninos não reagiram. Não resistiram. Estão acostumados a ser expulsos. Eles se foram, desapareceram no asfalto. Não puderam brilhar, não participaram do carnaval de luta e resistência, não foram bem-vindos na festa, não puderam celebrar a ocupação do espaço público. Não puderam dançar o axé que canta a dor do povo negro e sublima em alegria e resistência. Não puderam ouvir sobre “o Olodum, a onda que virá”, no bloco que canta as seqüelas racistas. Não puderam. Quiseram, mas não puderam. O Então Brilha ! não deixou o coral negro passar.

Poucas pessoas do bloco parecem ter percebido o acontecimento. Ninguém fez nada para impedir. O senhor branco continuou com ar prepotente como se fosse o dono do bloco. Esse mesmo senhor estava no Havayanas Usadas ajudando na organização. Optei por não tirar foto ou tentar descobrir seu nome, porque não é minha intenção expor o problema como uma questão individual. É coletiva. E, portanto, precisa ser pensada coletivamente. O carnaval cresceu, a rua impõe questões importantes, há que se pautar posicionamentos. Espero que o senhor branco (cujo comportamento não representa uma atitude isolada) se reveja e que os blocos nos quais ele participa revejam sua presença ou seu modo de participação.

O carnaval de BH se firmou como festa de luta, onde dançamos a dor e a alegria de viver aqui. Gritamos antes Fora Lacerda, para gritar agora Fora Temer. Lutamos por Tarifa Zero e andamos de graça na Busona ou na tora, sofremos violência policial (uns bem mais do que os outros), dividimos cerveja e espaço apertado com desconhecidos, já fui recebida por pessoas que abriram suas casas para me deixarem usar seu banheiro – nas periferias da cidade, claro! – e me deram de comer. São tantas coisas bonitas que vivemos na festa de rua que várias vezes nesses anos que passo carnaval aqui os olhos já se encheram de lágrimas, comoção que move o passo, enche o coração de uma alegria compartilhada coletivamente.

Há em curso um carnaval em disputa, muitos carnavais possíveis em disputa. E a Skol e os riscos de um carnaval privatizado, por incrível que pareça, é o menor de nossos problemas. Bloco que se diz de luta e de esquerda expulsar meninos de rua é violência brutal à vida humana e a vida na cidade. Se não tem lugar para os meninos pobres e pretos no carnaval de rua, esse carnaval não é digno de pronunciar a palavra luta.

Estamos aprendendo a fazer carnaval – e aprendendo a lutar, a conviver. Temos um ano de reflexão, autocrítica e reconstrução pela frente. Os blocos terão que olhar além do próprio umbigo se quiserem sanar essa ressaca de carnaval. Que o carnaval seja momento de cura social e não nova ferida aberta na cidade.

*********
Vejam o comentário do Christiano de Souza:

Obrigado por trazer o relato até aqui! Não tinha conhecimento do fato até você expor e acredito ser importante demais a reflexão e ação perante esse acontecimento que muito nos entristece! Feri muito a nossa luta, as nossas bandeiras e a nossa caminhada! Como representante e militante do bloco, te digo que o ocorrido não nos representa de maneira alguma e com certeza aconteceu sem o consentimento da organização do Bloco, mesmo que tenha sido dentro da corda, pois muita coisa foge do controle e da nossa administração legítima durante o desfile… Mas seguiremos sempre na busca por sermos melhores e mais brilhantes a cada ano, fazendo valer o que acreditamos enquanto mundo melhor através do carnaval! Aproveitando a oportunidade, já deixo o convite feito para que você participe (e traga o seu relato) para nossa assembleia! Sempre fazemos encontros para discutir coisas sobre o bloco! Ainda não tem data marcada, mas vamos fazer contato para que eu possa te avisar quando for! Venha somar com a gente! #genteéprabrilhar Abraço, Chris.

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Publicado às 8 08America/Sao_Paulo março 08America/Sao_Paulo 2017 por em Carnaval 2017, Sem categoria e marcado , , , .
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